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Uma doença que nunca para quieta

A dermatite atópica é a doença inflamatória crônica da pele mais comum do mundo. Afeta até 25% das crianças e entre 2 e 5% dos adultos — e quem a tem sabe que as descrições clínicas não capturam o que é acordar às três da manhã coçando, explicar a um chefe por que não conseguiu dormir, ou ver uma criança pequena arranhar a própria pele até sangrar.

O início se dá predominantemente no primeiro ano de vida — 90% dos casos aparecem antes dos cinco anos. Embora muitas crianças melhorem com a adolescência, entre 10% e 30% carregam a doença para a vida adulta, onde ela pode assumir formas diferentes: liquenificação nas flexuras, prurigo, ou o eczema de mãos que compromete a vida profissional.

Apesar dos avanços extraordinários na compreensão da patogênese e no desenvolvimento de novas terapias, a DA continua sendo, para muitos pacientes, uma doença difícil de controlar. Em estudo real-world, 81,3% dos adultos tratados com agentes sistêmicos relataram pelo menos uma crise no mês anterior à pesquisa. A busca por tratamentos que modifiquem o curso da doença — e não apenas controlem os sintomas — permanece como o grande objetivo do campo.

"Acompanho pacientes com dermatite atópica desde 1997. Nesse tempo, vi terapias surgirem, prometerem, desapontarem, amadurecerem. A fototerapia não foi inventada ontem — e é exatamente por isso que confio nela."

Dr. Rubens Marcelo Souza Leite · FOTODERMA

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O paradoxo de uma terapia antiga e eficaz

Existe uma ironia no campo da fototerapia: é um dos tratamentos mais antigos da medicina dermatológica e, ao mesmo tempo, um dos mais subutilizados — não por falta de eficácia, mas por falta de evidências com o rigor metodológico que os biológicos modernos possuem.

Uma revisão Cochrane que embasou as diretrizes mais recentes da AAD incluiu 32 estudos clínicos com 1.219 participantes. A recomendação para uso da fototerapia foi classificada como condicional, baseada em evidência de baixa certeza — não porque a terapia não funciona, mas porque foi rebaixada por tamanho amostral pequeno e risco de viés. As próprias diretrizes da AAD reconhecem explicitamente que, por ser uma terapia sem patente e sem investimento industrial robusto, a fototerapia nunca recebeu os trials de fase III que os biológicos receberam.

Para endereçar exatamente essa lacuna, o trial UPDATE — UVB Phototherapy in Dermatology for ATopic Eczema — foi desenhado como um estudo multicêntrico, prospectivo e randomizado, comparando NB-UVB combinada à terapia tópica otimizada versus terapia tópica isolada, em adultos com DA moderada a grave. Seus resultados prometerão ser os mais rigorosos já produzidos sobre o tema.

Enquanto isso, os dados reais disponíveis já são expressivos o suficiente para guiar a prática clínica com segurança.

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O que a NB-UVB faz na DA: além da superfície

A fototerapia com NB-UVB (311–313 nm) não é uma terapia de superfície. Ela age nos mecanismos imunológicos subjacentes à DA — suprimindo as vias inflamatórias que sustentam a doença, restaurando a barreira epidérmica e modulando o microbioma cutâneo. É, em sentido preciso, um imunomodulador que entra pela pele.

🔬
Apoptose de linfócitos T
Induz morte celular programada nos linfócitos T CD4+ e CD8+ infiltrados nas lesões, interrompendo o ciclo inflamatório local.
🛡️
Supressão Th2/Th22
Reduz IL-4, IL-13 e IL-22 — citocinas centrais da DA — modulando a resposta imune adaptativa sem comprometer a imunidade sistêmica.
🧱
Restauração de barreira
Upregula filagrina e loricrina, proteínas essenciais da integridade epidérmica, revertendo o defeito de barreira que amplifica a inflamação.
🌿
Redução de IL-31 e prurido
Diminui a produção de IL-31, principal mediador do prurido na DA, com melhora documentada da qualidade do sono.
☀️
Síntese de vitamina D3
Estimula a produção cutânea de vitamina D3, com efeito imunomodulador adicional — modulando a diferenciação de células dendríticas.
🦠
Modulação do microbioma
Reduz colonização por S. aureus e favorece maior diversidade microbiana cutânea — efeito sinérgico com dupilumabe documentado.
≥50%
Redução no SCORAD em todos os pacientes com DA moderada a grave Em estudo com NB-UVB 3×/semana por 12 semanas. Dados reais de 2024 com coorte multiétnica confirmam eficácia comparável a outras terapias sistêmicas em condições do mundo real.

Há ainda um dado molecular relevante: o NB-UVB também regula a expressão da filagrina (FLG) — a proteína de barreira cujas mutações estão entre os principais fatores de risco genéticos para DA. Clinicamente, isso se traduz em redução da espessura da pele, diminuição da perda transepidérmica de água e alívio do prurido — o tríplice benefício que os pacientes mais valorizam.

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Quando indicar: as diretrizes de 2025

As diretrizes mais recentes da AAD (2025) mantêm a fototerapia como opção válida para DA refratária a tópicos, ao lado dos biológicos e inibidores de JAK. A NB-UVB não é primeira linha sistêmica em todos os casos — mas ocupa um espaço clínico específico e insubstituível.

🟢 Segurança documentada O perfil de segurança da NB-UVB em DA é amplamente favorável. Não eleva risco de infecções graves. Não requer monitoramento de tuberculose latente. Não há interação com a maioria dos medicamentos. Os efeitos adversos mais comuns — eritema, xerose, hiperpigmentação transitória — são manejáveis com ajuste de protocolo.

05 —

Protocolo NB-UVB na DA: dosimetria e conduta

O protocolo de NB-UVB para DA segue lógica semelhante ao da psoríase, com adaptações relevantes. A dose é determinada pelo fototipo ou pela dose eritematosa mínima (DEM). A frequência padrão é de três sessões por semana. A duração de um curso de indução é de 8 a 16 semanas.

Fototipo Dose inicial (mJ/cm²) Incremento/sessão Dose máxima
I — Muito claro13015%2.000 mJ/cm²
II — Claro22015%3.000 mJ/cm²
III — Intermediário26010%4.000 mJ/cm²
IV — Moreno33010%5.000 mJ/cm²
V — Escuro35010%6.000 mJ/cm²
VI — Muito escuro40010%Individualizada

Regras de ajuste de dose

Eritema assintomático leve: manter dose atual sem incremento até resolução. Eritema sintomático moderado: reduzir dose em 25% e retomar incremento apenas após resolução completa. Eritema grave ou bolhas: suspender até cicatrização e reiniciar com 50% da dose que produziu a reação.

Pausas no tratamento: pausa de 1–2 semanas permite retomar com a mesma dose anterior. Pausa acima de 3 semanas exige recomeço da dose inicial do fototipo.

⚠️ Diferença importante em relação à psoríase Na DA, diferentemente da psoríase, o protocolo de manutenção é fundamental e frequentemente necessário. A remissão completa após o curso de indução é menos frequente, e o espaçamento gradual das sessões — em vez de interrupção abrupta — está associado a maior duração do benefício clínico. Cada paciente precisa de um plano de manutenção individualizado.

Fototerapia domiciliar: o que há de novo

Um dado de 2024 merece atenção especial: em estudo com dispositivo portátil de NB-UVB para uso domiciliar, 67% dos 52 pacientes com DA refratária apresentaram melhora documentada após 12 semanas, com taxa de adesão de 73% e satisfação média de 4,43 em escala de 5 pontos. A fototerapia domiciliar, antes marginal pela ausência de dados, começa a ganhar corpo como alternativa real para pacientes com dificuldade de deslocamento. No FOTODERMA, pacientes candidatos são treinados e monitorados para uso domiciliar quando clinicamente indicado.

06 —

Combinações terapêuticas: potencializando a resposta

A fototerapia não precisa ser usada isoladamente. Combinações estratégicas com outros tratamentos podem ampliar a resposta clínica, reduzir doses de medicamentos sistêmicos e prolongar a remissão.

NB-UVB + Dupilumabe

A combinação mais promissora no cenário atual. O dupilumabe bloqueia o receptor de IL-4α, reduzindo IL-4 e IL-13. A NB-UVB complementa com apoptose de linfócitos T lesionais, supressão de IL-22 e restauração de barreira via filagrina. Os dois mecanismos são sinérgicos — não redundantes. Em casos de resposta incompleta ao dupilumabe isolado, a adição de NB-UVB pode ser a diferença entre controle parcial e remissão sustentada.

NB-UVB + Inibidores de JAK tópicos (ruxolitinibe)

O ruxolitinibe tópico inibe JAK1 e JAK2, bloqueando a sinalização downstream de múltiplas citocinas inflamatórias. Combinado à NB-UVB em área localizada, pode reduzir a dose cumulativa de UV necessária para controle clínico — minimizando o risco carcinogênico a longo prazo em áreas de tratamento focal.

NB-UVB + Emolientes oclusivos

A aplicação de emolientes ricos em ceramidas imediatamente após cada sessão de NB-UVB potencializa a restauração de barreira induzida pela luz e reduz a xerose que pode acompanhar o tratamento. É uma combinação simples, acessível e com impacto real na tolerabilidade do protocolo.

"Há uma pergunta que recebo com frequência: 'com tantos biológicos novos, ainda vale a pena fazer fototerapia?' A minha resposta é sempre a mesma: depende de quem está perguntando. Para uma gestante com DA grave, a resposta é sim — e não há alternativa igualmente segura. Para um paciente em uso de dupilumabe com resposta parcial, a fototerapia pode ser o complemento que faltava. Para o paciente que não quer medicação contínua, pode ser a única opção que lhe dá períodos de controle sem dependência farmacológica. A pergunta não é 'fototerapia ou biológico'. É 'para este paciente, agora, o que faz mais sentido?'"
Dr. Rubens Marcelo Souza Leite · FOTODERMA Brasília

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Criança, gestante e idoso: quando a fototerapia é a escolha mais segura

Existem populações para as quais a fototerapia não é apenas uma opção válida — é a mais segura disponível. Três merecem destaque especial.

Crianças com DA moderada a grave

A preocupação com imunossupressão sistêmica em crianças é legítima e frequente. Ciclosporina, metotrexato e imunobiológicos carregam incertezas sobre efeitos a longo prazo no desenvolvimento imunológico de pacientes pediátricos. A NB-UVB, com décadas de uso em crianças, tem perfil de segurança amplamente documentado. Não há efeito imunossupressor sistêmico. O principal desafio — adesão ao protocolo de três sessões semanais — é abordável com estratégias de engajamento familiar e protocolos de manutenção gradual.

🟢 Evidência pediátrica Estudos de melatonina noturna em crianças e adolescentes com DA mostraram redução significativa no SCORAD em 4–8 semanas. A fototerapia pode ser associada a intervenções sobre o sono como parte de um plano multimodal — especialmente em pacientes com componente de prurido noturno intenso.

Gestantes com DA

A DA pode agravar durante a gestação em uma parte das pacientes. A lista de tratamentos sistêmicos seguros na gravidez é curta: corticosteroides tópicos em doses controladas, emolientes, e — para casos moderados a graves — a NB-UVB. Sem efeito mutagênico, sem passagem placentária, sem risco fetal documentado. As diretrizes EADV e AAD recomendam a NB-UVB como a modalidade de fototerapia de escolha na gestação. A proteção abdominal com avental plumbífero não é necessária para NB-UVB, mas é recomendada como precaução adicional em alguns protocolos.

Pacientes idosos

No idoso com DA, a polifarmácia e o risco aumentado de efeitos adversos de imunossupressores sistêmicos tornam a fototerapia particularmente atraente. Não há interação medicamentosa relevante com a maioria dos fármacos de uso crônico. O protocolo deve ser ajustado para a xerose basal mais intensa nessa faixa etária, com emolientes pré e pós-sessão e doses iniciais mais conservadoras.

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Por que a luz permanece essencial em 2026

O campo da dermatite atópica nunca foi tão rico em opções terapêuticas. Dupilumabe, tralokinumabe, lebrikizumabe, abrocitinibe, upadacitinibe — cada um deles representa um avanço real no controle da doença. E no horizonte próximo, os agentes anti-OX40L como o amlitelimabe prometem algo ainda mais ambicioso: modificação durável do curso da doença.

Nesse cenário, a fototerapia não retrocede. Ela encontra seu lugar — que é preciso, específico e insubstituível. Para o paciente que não pode ou não quer medicação sistêmica contínua. Para a gestante. Para a criança. Para quem responde parcialmente ao biológico e precisa de um complemento com mecanismo diferente. Para o paciente sem acesso ao sistema privado.

A fototerapia oferece remissões sem imunossupressão sistêmica. Não eleva o risco de infecções oportunistas. É segura nos extremos de idade. É a única modalidade recomendada na gestação. É passível de combinação com praticamente todos os outros tratamentos disponíveis. E — dado que os estudos não capturam bem — cria uma relação de engajamento terapêutico que a injeção mensal não consegue reproduzir. O paciente que vem três vezes por semana aprende a observar sua pele. Aprende a entender sua doença. Aparece nas consultas de retorno. E isso, clinicamente, faz diferença.

"Quando um paciente me diz que tocou a própria pele depois de cinco sessões e ela estava lisa — que não conseguia lembrar quando havia sido a última vez que isso acontecera — isso não é só clínica. É devolver a uma pessoa a relação com o próprio corpo. E isso, nenhum escore consegue medir."
Dr. Rubens Marcelo Souza Leite · FOTODERMA Brasília

A luz que usamos hoje em cabines calibradas a 311 nm é, em essência, a mesma luz que a medicina empírica descobriu há séculos. O que mudou foi nossa compreensão — molecular, imunológica, clínica. E essa compreensão é suficiente para afirmar: a fototerapia não é o tratamento de ontem. É uma das ferramentas mais elegantes que a dermatologia contemporânea tem para oferecer à dermatite atópica.